Depois da base: as carreiras que o futebol não conta

O futebol celebra os jovens que assinam contratos profissionais. A vida de quem fica de fora conta outra história: ganhar a vida, recomeçar e enfrentar oportunidades desiguais.

Publicado 15 de set de 2026
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Este artigo foi originalmente escrito em English . A tradução que você está lendo pode conter erros editoriais.

Depois da base: as carreiras que o futebol não conta

Todos conhecemos a foto do primeiro contrato profissional. Uma camisa sobre a mesa, o escudo do clube atrás do jogador e a família ao lado. A notícia relembra anos de trabalho, agradece aos treinadores e dedica algumas frases ao futuro. Os nomes dos companheiros que deixam o mesmo clube naquele verão talvez apareçam em uma lista breve. Eles também passaram anos nas mesmas instalações e participaram dos mesmos treinos. Suas famílias fizeram as mesmas viagens para acompanhá-los fora de casa. Mas, quando a temporada começa, o clube tem novas histórias para contar. O que o jogador dispensado fará na manhã de segunda-feira deixa de ser notícia de futebol.

Sabemos que nem todos os jovens de uma academia chegarão ao futebol profissional. Ainda assim, estamos acostumados demais a elogiar o sistema que formou o jogador bem-sucedido e a explicar a dispensa de outro por suas limitações pessoais. Um se torna prova da qualidade do modelo de formação do clube; o outro é considerado incapaz de atingir o nível necessário. No entanto, foi o mesmo sistema que exigiu dos dois um compromisso semelhante durante anos. A escola organizada em função dos treinos, os fins de semana reservados para os jogos, o tempo e os custos das viagens assumidos pelas famílias: nada disso dizia respeito apenas a quem acabaria assinando um contrato. A distância entre os sacrifícios que o futebol exige dos jovens e o futuro que pode oferecer aparece com mais clareza no dia em que o clube decide deixá-los partir.

Iyiola Adebayo, ex-jogador das categorias de base do West Ham, conta que, seis meses depois de ter sido capitão de uma equipe do clube, fazia entregas para a Domino’s. A entrevista no The Guardian. É fácil ler esse detalhe como uma história de queda. Mas não há nada de vergonhoso em trabalhar como entregador. A questão é saber com o que um jovem fica quando desaparece o futuro para o qual se preparou durante anos. A disciplina que demonstrou no futebol não torna automaticamente mais fácil sua primeira candidatura a um emprego. Escrever o nome de um clube no currículo não substitui a formação exigida por outra profissão. Quando precisa pagar as contas, o potencial que antes lhe atribuíam só o leva até certo ponto.

Liam Robinson, que jogou com Trent Alexander-Arnold nas categorias de base do Liverpool, trabalhava nas redes de esgoto e drenagem da United Utilities quando falou ao BBC Breakfast, em abril de 2023. Contou que estava tão concentrado em se tornar jogador profissional que não havia planejado outro futuro. Depois de saber que não seria mantido pelo clube, voltou ao vestiário e começou a chorar. No novo trabalho, ouvia piadas sobre seu passado no Liverpool. Dizia que aquilo o fazia se sentir inútil, como se devesse ter conseguido mais na vida. A entrevista da BBC, republicada pela BusinessGhana.

Robinson estava trabalhando. Ainda assim, seu emprego podia ser desvalorizado quando comparado à camisa que havia vestido. A pressão sobre quem deixa uma categoria de base também não termina aí: espera-se que construa uma vida fora do futebol e, depois, lembra-se que essa vida não tem o brilho de uma carreira como jogador. Para alguém conhecido como “o jogador de futebol” muito antes dos dezoito anos, pode ser difícil escapar dessa comparação. Nem os anos passados em outra profissão conseguem, aos olhos dos outros, separá-lo completamente do antigo clube. Aquilo que poderia ter sido acaba pesando mais do que o trabalho que realiza hoje.

Josh Agbozo também apareceu naquela reportagem da BBC. Jogou durante anos com Alexander-Arnold nas categorias de base do Liverpool antes de ser dispensado, aos dezesseis anos. Contava que as lesões o haviam impedido de mostrar plenamente do que era capaz e que, depois de sair, não sabia que caminho seguir. Quando a entrevista foi publicada, trabalhava como assistente de terapia ocupacional. A entrevista da BBC, republicada pela BusinessGhana. O caso dele lembra um detalhe que se perde na linguagem da gestão dos elencos: a oportunidade de um jogador pode terminar sem que ele sequer sinta que teve uma chance real de provar seu valor. O clube encerrou a avaliação; o jogador continua se perguntando o que teria acontecido sem aquelas lesões. Começar outro trabalho não responde a essa pergunta.

É importante conhecer essas histórias. Mas apontar para alguns ex-jogadores que encontraram emprego não permite concluir que o sistema de apoio depois da saída esteja funcionando. Os relatos mostram que a transição é possível, não que aconteça para todos nas mesmas condições. Mesmo quem quer fazer um teste em outro clube precisa colocar as despesas na ponta do lápis: transporte, hospedagem, alimentação e tempo sem renda. Quem pode esperar mais alguns meses com o apoio da família toma uma decisão diferente de quem precisa começar a trabalhar imediatamente. Um se prepara para o teste da semana seguinte enquanto o outro tenta conseguir folga no trabalho. Se o segundo não puder comparecer, o que podemos realmente concluir sobre seu talento ou seu compromisso com o futebol?

No futebol, o conselho para nunca desistir é dado com facilidade demais. Gostamos da história do jogador que sobe pelas divisões inferiores, marca anos depois contra o clube que o dispensou e prova que seus críticos estavam errados. Como conhecemos o desfecho, lemos todas as dificuldades do caminho como etapas rumo ao sucesso. Ouvimos menos aqueles que tentaram seguir o mesmo percurso sem conseguir contrato. Alguns talvez não tenham dinheiro para uma nova tentativa. Outros podem não conseguir manter o ritmo de treino necessário enquanto trabalham. E haverá quem faça tudo o que pode sem se tornar o jogador que um clube procura. Colocar todos na mesma história sobre “acreditar o suficiente” significa ignorar tanto o número limitado de vagas nos elencos quanto as condições em que cada pessoa precisa ganhar a vida.

O custo de uma vida dedicada ao futebol desde a infância não se mede apenas pelas despesas. É mais difícil calcular o tempo que não foi dedicado a conhecer outras áreas. Um jovem que não teve oportunidade de desenvolver o interesse por uma matéria da escola, entender como funciona uma profissão ou imaginar durante anos um futuro que não passasse pelo futebol pode só começar a explorar suas opções depois de sair. Dizer que ele ainda é muito jovem é verdade, mas não basta. Não saber por onde começar enquanto os colegas da mesma idade avançam nos estudos ou no trabalho tem um peso próprio. Além disso, ele precisa encontrar tempo para aprender algo novo enquanto enfrenta a necessidade imediata de ter uma renda.

É nesse ponto que os empregos no futebol fora de campo costumam ser apresentados como uma resposta pronta. Ele pode virar treinador, observador ou trabalhar com análise. Mas essas profissões não são uma sala de espera grande o bastante para receber todos os que não encontram espaço como jogadores. Há exigências de formação, expectativa de experiência, concorrência e poucas vagas. Concluir um curso não garante emprego. Ter passado anos em uma categoria de base não ensina automaticamente a usar um software de análise ou a treinar crianças. Adquirir essas habilidades exige mais tempo e, às vezes, mais dinheiro. Explicar como o setor é amplo serve de pouco para quem não consegue custear esse período de formação. A pergunta é se existe um trabalho ao qual essa pessoa possa ter acesso e que lhe permita viver.

O setor do futebol também precisa questionar a maneira como fala sobre carreiras. Publicar uma vaga não significa que aquela oportunidade esteja ao alcance de todos. Pode ser necessário mudar de cidade, aceitar um salário inicial baixo ou se sustentar com outra fonte de renda enquanto se ganha experiência. O jovem que antes esperava ser escolhido como jogador agora se depara com anúncios que exigem experiência. Existe uma distância considerável entre estar perto do futebol e conseguir viver dele. Falar constantemente em novas oportunidades sem explicar essa distância acrescenta uma expectativa a outra que ainda não foi cumprida.

Por isso, a responsabilidade dos clubes não pode ser medida apenas pela delicadeza com que comunicam a dispensa. Depois de planejar durante anos as semanas, os objetivos e o desenvolvimento de um jovem, quanto a instituição se interessa pela vida dele quando deixa de fazer parte do elenco? Sabe se ele terminou os estudos? Volta a entrar em contato alguns meses depois se não encontrou outro clube? A pessoa a quem ele podia recorrer quando precisava de apoio ainda está lá? Responder que não é possível oferecer contrato a todos não responde a essas perguntas. A discussão envolve tanto o número de vagas disponíveis no elenco quanto a situação em que ficam aqueles que passaram anos se preparando para ocupá-las.

Não deveríamos apresentar os trabalhos de Adebayo, Robinson e Agbozo como prêmios de consolação pelas carreiras no futebol que não tiveram. O fato de exercerem outra profissão não deve ser interpretado como uma tentativa de provar novamente seu valor ao público. Não precisamos esperar deles um retorno extraordinário, uma grande fortuna ou um final inspirador. Podemos permanecer com a pergunta mais incômoda: uma pessoa que organizou grande parte da infância em torno do futebol estava preparada o suficiente para construir a própria vida quando saiu daquele contexto?

Os clubes acompanham os minutos no time principal, as transferências e as receitas geradas pelos jogadores formados em suas categorias de base. Deveria ser possível conhecer com a mesma seriedade a situação de quem sai. Entre os jogadores dispensados no ano passado, quantos continuam estudando, quantos procuram trabalho e quantos ainda esperam um contrato? Por que deixar suas vidas fora da conta quando se conta a história de sucesso de uma academia? Sabemos onde está hoje o jogador da foto da assinatura. O clube sabe onde estão seus antigos companheiros de equipe?