Contestar um erro de arbitragem: poderá o FVS tornar-se o modelo pós-VAR do futebol?
A Ligue 3 francesa introduziu o Football Video Support, um sistema que permite aos treinadores pedir a revisão de decisões de arbitragem importantes. Poderá o FVS tornar-se uma alternativa ao VAR mais acessível e estratégica?
Este artigo foi originalmente escrito em English . A tradução que está a ler pode conter erros editoriais.
A nova terceira divisão profissional francesa, a Ligue 3, iniciou a época 2026-27 com mais do que uma nova identidade. Introduziu também uma forma diferente de rever decisões de arbitragem.
O Football Video Support, ou FVS, substitui a monitorização contínua do VAR por um sistema limitado de pedidos de revisão acionados pelos treinadores. Depois de já ter influenciado cartões vermelhos, golos e decisões de penálti logo na primeira jornada, o sistema levanta uma questão mais ampla: poderá a próxima fase da assistência vídeo à arbitragem transferir parte da responsabilidade diretamente para as equipas?
Durante anos, o VAR dominou o debate sobre o uso da tecnologia de vídeo no futebol.
O custo, a duração de algumas revisões, as diferentes interpretações do critério de “erro claro e óbvio” e a frustração provocada por decisões extremamente marginais alimentaram críticas em várias ligas e competições.
A terceira divisão francesa começou agora a nova época com uma abordagem diferente.
Com a profissionalização da Ligue 3 Betclic para a época 2026-27, o Football Video Support (FVS) foi introduzido pela primeira vez numa competição de liga em França.
A Federação Francesa de Futebol apresenta a nova Ligue 3 não apenas como uma reforma estrutural da pirâmide do futebol francês, mas também como um espaço onde podem ser testadas novas práticas de arbitragem e novas regulamentações desportivas.
O FVS é um dos elementos mais interessantes dessa experiência.
Um impacto imediato
Não foi preciso esperar muito para que o sistema tivesse influência direta num jogo.
Apenas cinco minutos depois do início do Aubagne–Thionville, disputado a 7 de agosto de 2026, o treinador do Thionville, Julien François, pediu uma revisão após uma entrada de Bilel Tafni, jogador do Aubagne.
O árbitro Edgar Barenton reviu o lance no monitor junto ao relvado e alterou a decisão inicial, mostrando cartão vermelho a Tafni.
O Thionville acabaria por vencer por 3-0, e a jornada inaugural da nova Ligue 3 produziu assim um dos primeiros exemplos relevantes de uma decisão de arbitragem diretamente alterada através do FVS no futebol francês.
E essa esteve longe de ser a única intervenção.
Durante a primeira jornada, um golo do Valenciennes foi anulado após revisão, um penálti inicialmente assinalado a favor do Rouen foi revertido, enquanto Le Puy-en-Velay e Paris 13 beneficiaram de grandes penalidades depois de revisões em vídeo.
Numa só noite, o FVS já tinha influenciado várias das decisões de arbitragem com maior impacto num jogo.
Só isso bastou para mostrar por que motivo a introdução do sistema merece ser acompanhada de perto.
O FVS não é simplesmente um VAR mais barato
É tentador descrever o FVS como um “VAR de baixo custo”.
Mas a diferença mais importante entre os dois sistemas não está na quantidade de tecnologia utilizada.
Está em quem inicia o processo de revisão.
Com o VAR, uma equipa dedicada de árbitros de vídeo acompanha o jogo de forma contínua. As situações abrangidas pelo protocolo podem ser verificadas sem que nenhuma das equipas tenha de intervir.
O FVS funciona de forma diferente.
Não existe uma equipa VAR separada a observar permanentemente o encontro.
Uma revisão só começa quando um treinador a solicita.
O treinador faz o sinal previsto e comunica o pedido ao quarto árbitro. Em seguida, o árbitro principal dirige-se ao monitor junto ao terreno de jogo, revê as imagens e toma ele próprio a decisão final.
Por outras palavras, o FVS não transfere a autoridade para outro árbitro.
Dá ao mesmo árbitro uma segunda oportunidade para avaliar o lance.
Na Ligue 3, cada equipa começa o jogo com dois pedidos de revisão disponíveis.
Se a revisão levar à alteração da decisão inicial, a equipa mantém o direito.
Se a decisão for mantida, perde um dos pedidos.
A verdadeira limitação do sistema, portanto, não é o número de revisões bem-sucedidas que uma equipa pode solicitar.
É o número de pedidos sem sucesso que se pode permitir perder.
E isso altera a própria lógica da assistência vídeo à arbitragem.
Parte da responsabilidade passa para as equipas
Esta poderá ser uma das consequências mais importantes do FVS.
Com o VAR, a responsabilidade de identificar um possível erro grave de arbitragem recai sobretudo sobre os árbitros de vídeo.
Com o FVS, parte dessa responsabilidade passa para a equipa.
O árbitro pode cometer um erro.
Mas, se a equipa técnica não perceber que o lance merece revisão, a análise em vídeo pode simplesmente nunca acontecer.
Da mesma forma, um treinador que já tenha esgotado os seus dois pedidos sem sucesso poderá ficar impedido de solicitar uma nova revisão mais tarde, mesmo numa situação mais importante.
Em teoria, dois erros de arbitragem semelhantes no mesmo jogo podem, por isso, produzir resultados diferentes.
Uma equipa identifica o erro, pede a revisão e consegue que a decisão seja alterada.
A outra não.
Por isso, o FVS não é apenas uma tecnologia de arbitragem.
É também um sistema de tomada de decisão.
Os treinadores têm de avaliar, em poucos segundos, se o lance está abrangido pelo protocolo, se as imagens disponíveis poderão ser suficientes para alterar a decisão e se vale a pena usar um pedido de revisão naquele momento.
Isso acrescenta uma dimensão estratégica completamente nova à área técnica.
Perspetiva Kickwise: poderá surgir uma nova profissão no futebol?
Uma das consequências mais interessantes do FVS a longo prazo poderá ter menos a ver com os árbitros e mais com a forma como os clubes estruturam as suas equipas técnicas.
Os clubes profissionais já trabalham com analistas de rendimento, analistas de vídeo, cientistas de dados, especialistas em bolas paradas e analistas de adversários.
Se os sistemas de revisão baseados em pedidos das equipas se tornarem mais comuns, poderá surgir uma nova área de especialização.
Os clubes poderão decidir atribuir a uma pessoa a função específica de acompanhar as decisões de arbitragem e identificar lances que possam justificar um pedido de revisão.
Seria uma função diferente da análise tradicional de rendimento.
A prioridade não seria estudar padrões táticos ou avaliar o desempenho dos jogadores.
Em vez disso, esse especialista teria de analisar um lance controverso em poucos segundos, conhecer bem as Leis do Jogo, perceber se a situação está abrangida pelo protocolo FVS e aconselhar imediatamente o treinador:
Pede a revisão.
Ou, tão importante quanto isso:
Guarda o pedido.
Hoje não existe no futebol profissional uma função padronizada chamada “FVS Analyst”, “Challenge Analyst” ou “Refereeing Analyst”.
Mas, se sistemas como o FVS se tornarem mais comuns, não é difícil perceber por que motivo uma função desse tipo poderá surgir.
Uma única recomendação correta poderá permitir anular um cartão vermelho injusto, levar à marcação de um penálti, invalidar um golo irregular ou corrigir uma decisão decisiva contra a própria equipa.
No futebol profissional, onde uma única decisão pode influenciar pontos, uma subida de divisão, uma despromoção ou a passagem de uma eliminatória, o valor de alguém capaz de identificar o momento certo para pedir uma revisão poderá tornar-se rapidamente significativo.
Deste ponto de vista, o FVS poderá não mudar apenas a forma como os árbitros trabalham.
Poderá também alterar a composição das equipas técnicas.
Porque foi criado o FVS?
A acessibilidade é uma das principais razões por detrás do sistema.
Uma operação completa de VAR exige muito mais do que câmaras.
São necessários árbitros de vídeo, sistemas de comunicação, infraestrutura técnica, formação e, em muitas competições, instalações específicas para a operação do sistema.
Estes custos podem ser comportáveis nas ligas de elite, mas tornam-se muito mais difíceis de sustentar à medida que se desce na pirâmide do futebol.
O FVS foi concebido para permitir revisões em vídeo com menos câmaras e menos recursos operacionais.
Essa vantagem é também uma das suas limitações.
Com menos ângulos disponíveis, o árbitro poderá nem sempre ter acesso a uma imagem suficientemente conclusiva de um lance controverso.
Pode haver revisão sem que as imagens forneçam provas suficientes para alterar a decisão inicial.
Por isso, o FVS não foi criado para eliminar todos os erros de arbitragem.
O seu objetivo mais realista é dar aos árbitros a possibilidade de corrigir alguns erros importantes em competições onde um sistema VAR completo não é viável do ponto de vista económico ou operacional.
França faz parte de uma experiência mais ampla
A Ligue 3 não é a primeira competição a utilizar o FVS.
Depois dos primeiros testes em torneios jovens da FIFA, o sistema começou a surgir também em competições nacionais como a Serie C italiana, a Primera Federación espanhola e a Liga F.
França deve, por isso, ser vista como parte de uma experiência muito mais ampla.
O objetivo geral é tornar a revisão em vídeo acessível para além das ligas e competições mais ricas do futebol mundial.
Se o FVS provar ser fiável, rápido e acessível, poderá tornar-se especialmente atrativo para segundas e terceiras divisões, competições de futebol feminino, torneios de formação e federações com recursos mais limitados.
Mas, a longo prazo, a questão mais interessante poderá ir além da acessibilidade.
Poderá o FVS tornar-se realmente uma alternativa ao VAR?
Por enquanto, a FIFA não apresenta o FVS como um substituto do VAR.
Mas as tecnologias no futebol raramente permanecem exatamente como eram quando foram introduzidas.
Alguns dos princípios do FVS oferecem respostas muito diferentes a questões que acompanham o VAR há anos:
Pedidos de revisão limitados em vez de monitorização permanente.
Responsabilidade das equipas em vez da verificação automática de todas as situações relevantes.
O árbitro em campo a rever pessoalmente as imagens, em vez de outro árbitro orientar o processo a partir de uma sala de vídeo.
E tudo isto através de um sistema capaz de funcionar com muito menos recursos.
Naturalmente, o FVS também traz os seus próprios problemas.
Será necessário observar durante um período muito mais longo como os treinadores gerem os pedidos de revisão, se as solicitações táticas ou especulativas se tornam mais frequentes, quanto tempo as revisões acrescentam aos jogos e se uma cobertura limitada de câmaras fornece informação suficiente para decisões fiáveis.
Uma única jornada da Ligue 3 não pode responder a todas essas questões.
Mas já demonstrou algo importante.
O Football Video Support deixou de ser apenas um conceito experimental.
Já está a alterar cartões vermelhos, golos e decisões de penálti em jogos oficiais.
A próxima fase do debate, por isso, não se limitará à forma como os árbitros se adaptam.
Será igualmente importante perceber se os treinadores desenvolvem estratégias específicas para gerir os pedidos de revisão, se os clubes começam a investir em especialistas capazes de apoiar essas decisões e se outras competições decidem adotar o mesmo modelo.
Porque talvez a inovação mais importante do FVS não seja o ecrã.
Poderá ser o facto de as equipas se tornarem participantes ativos no processo de correção dos erros de arbitragem.
E, se este modelo se generalizar, o futebol poderá vir a precisar não apenas de árbitros capazes de tomar as decisões certas, mas também de profissionais capazes de identificar as erradas antes de todos os outros.