A história do Mundial não é escrita apenas pelos futebolistas
A história do Mundial é habitualmente contada através dos golos, dos troféus e dos jogadores de lenda. No entanto, o maior palco do futebol também foi moldado por escultores, designers, engenheiros, equipas tecnológicas e profissionais que raramente aparecem, mas cujo trabalho mudou a forma como o jogo é disputado, visto e recordado.
A história do Mundial não é escrita apenas pelos futebolistas
Quando se pensa no Mundial, pensa-se quase sempre primeiro nos golos.
Uma taça erguida na noite da final. Uma defesa impossível de um guarda-redes. Uma estrela que deixa a sua marca em todo um torneio. Um selecionador a orientar cada movimento a partir da linha lateral. A memória do futebol constrói-se muitas vezes com estas imagens: as câmaras seguem-nas, os nomes dos protagonistas ocupam as manchetes e as crianças penduram os seus pósteres nas paredes do quarto.
Mas a história do Mundial nunca foi escrita apenas por jogadores e treinadores.
O maior palco do futebol também é moldado por pessoas que nunca pisam o relvado. Por vezes, é um escultor. Noutras, um designer gráfico ou uma equipa tecnológica. Pode ainda ser um sistema de arbitragem, um engenheiro que desenvolve bolas ou um profissional de operações cujo trabalho permanece invisível precisamente porque tudo corre bem.
Os seus nomes raramente são cantados nos estádios.
Mas as suas marcas estão em todo o lado.
A história de Silvio Gazzaniga é um bom ponto de partida.
Gazzaniga não foi futebolista nem treinador. Ainda assim, ficou conhecido como o criador de um dos objetos mais reconhecíveis da história do futebol: o Troféu do Campeonato do Mundo da FIFA.
Depois de o Brasil conquistar o torneio pela terceira vez, em 1970, a Taça Jules Rimet foi-lhe atribuída em definitivo. O futebol precisava de um novo símbolo. Quem o desenhou foi um escultor italiano. Hoje, quando milhões de pessoas veem o troféu ser erguido na noite da final, estão também a contemplar a obra de alguém que nunca disputou um único minuto num Mundial.
Esta história recorda-nos uma verdade simples, mas muitas vezes esquecida:
A memória do futebol não é feita apenas por quem joga. É também moldada por quem cria os seus símbolos.
Outro sucesso quase invisível surgiu no Mundial de 1966: World Cup Willie.
Hoje, as mascotes parecem fazer parte, de forma natural, da cultura dos grandes torneios. Mas um dos pontos de partida desta tradição no palco mundial aconteceu em Inglaterra, em 1966. World Cup Willie era um leão e, acima de tudo, um sinal de que o universo comercial, cultural e visual do futebol começava a expandir-se.
Por detrás da personagem não estava uma estrela do futebol. Reg Hoye, ilustrador de livros infantis, deixou a sua marca na história do Mundial sem nunca entrar em campo.
O seu trabalho revela uma outra dimensão do futebol.
Por vezes, o espírito de um torneio vive na sua mascote. Por vezes, um desenho ajuda as crianças a criarem uma ligação com o jogo. Por vezes, a cultura do futebol nasce à mesa de trabalho de um artista antes de entrar na memória de milhões de pessoas.
A história do Mundial não é escrita apenas nos resultados, mas também nos símbolos.
Depois chegou a tecnologia.
O Mundial de 2014 marcou um momento importante para a tecnologia da linha de golo. Durante décadas, o futebol discutiu uma das suas questões mais sensíveis: a bola ultrapassou a linha? A partir daí, a resposta deixou de depender apenas do olhar humano. Câmaras, sistemas, software e infraestrutura técnica passaram a fazer parte do processo de decisão.
Não foi uma mudança tática. Não foi uma transferência. Nem sequer uma substituição capaz de mudar o rumo do jogo.
Mas foi um passo decisivo para reforçar o sentido de justiça no futebol.
Por detrás destes sistemas estavam engenheiros, especialistas em software, operadores de câmara, equipas de testes e responsáveis pelo planeamento do torneio. Nenhum deles se tornou a figura do encontro. Nenhum deu entrevistas no final do jogo. Ainda assim, contribuíram para aumentar a confiança num dos momentos mais decisivos do futebol.
Por vezes, o que entra para a história do Mundial não é um golo, mas o sistema que confirma se esse golo aconteceu realmente.
Em 2018, o VAR passou para o centro do Mundial.
O VAR continua a gerar debate. É elogiado, criticado e, por vezes, acusado de quebrar o ritmo do jogo. Mas a polémica não reduz a sua importância. Pelo contrário, mostra que o futebol já não é conduzido apenas por quem está no relvado. Especialistas diante de ecrãs, tecnologia de vídeo, protocolos de comunicação e estruturas de decisão também passaram a moldar o jogo.
O destino de um lance já não se limita àquilo que o árbitro vê em tempo real.
Videoárbitros, operadores de repetição, coordenadores técnicos e sistemas de comunicação tornaram-se parte do futebol. Num jogo do Mundial, uma decisão de penálti pode depender não só do contacto dentro da área, mas também de uma análise minuciosa feita por pessoas que as câmaras raramente mostram.
Retira isto algum romantismo ao futebol?
Para alguns, talvez.
Visto de outra perspetiva, alarga o universo profissional do futebol. Cria novas áreas de especialização em torno do jogo e abre caminhos para quem quer trabalhar neste desporto sem estar dentro das quatro linhas.
As bolas do Mundial são outro exemplo de trabalho invisível.
Vista de fora, uma bola pode parecer apenas o objeto básico do jogo. No entanto, cada bola oficial do Mundial reúne a engenharia, o design e as ciências do desporto da sua época. A estrutura dos painéis, a textura da superfície, a distribuição do peso, a aerodinâmica e a sensação no toque são definidas em longos processos de teste conduzidos por equipas especializadas.
Algumas bolas conquistam jogadores e adeptos. Outras são alvo de duras críticas. De uma forma ou de outra, tornam-se parte da conversa.
Porque a bola é o objeto essencial do futebol. O remate do jogador conta, mas a forma como a bola viaja pelo ar também.
Por isso, os responsáveis pela conceção das bolas, os engenheiros e as equipas de testes também são protagonistas invisíveis da história do Mundial. O seu trabalho raramente chega às manchetes, mas pode influenciar o ritmo dos jogos, o comportamento dos remates e a própria sensação de jogar.
Outro domínio decisivo é a identidade visual.
Cartazes, logótipos, grafismos televisivos, genéricos de abertura, fotografias e elementos visuais dos estádios ajudam a definir a forma como um torneio é recordado. Alguns Mundiais ficam na memória não apenas pela final, mas também pelas cores, pelos cartazes, pela linguagem gráfica e pela atmosfera cultural.
Desde 1930, cada edição construiu a sua própria memória visual.
E essa memória não é criada pelos futebolistas. Nasce do trabalho de artistas, designers gráficos, diretores criativos, fotógrafos, profissionais de televisão e equipas de comunicação.
Quando vemos um Mundial, não estamos apenas a ver futebol. Estamos também a observar o design, a tecnologia, a linguagem dos meios de comunicação e a forma de contar histórias de uma época.
É por isso que devemos deixar de encarar as carreiras no futebol de forma tão limitada.
Não é preciso marcar um golo para deixar uma marca neste desporto. Também não é necessário orientar uma seleção. A história do Mundial está cheia de exemplos que o demonstram.
Um escultor pode participar no maior momento do futebol ao criar o seu troféu. Um ilustrador pode entrar na memória do torneio ao desenhar uma mascote. Um engenheiro pode tornar o jogo mais justo através da tecnologia da linha de golo. Uma equipa de vídeo pode influenciar o destino de um jogo através do VAR. Um responsável pela conceção de bolas pode mudar a própria sensação de jogar. Um designer gráfico pode criar a identidade visual pela qual um torneio será recordado durante décadas.
Nenhuma destas carreiras é um plano B.
São verdadeiras profissões do futebol.
O problema é que, durante demasiado tempo, o futebol apresentou os sonhos profissionais de forma muito limitada: ou se é jogador ou se é treinador. Fora dessas duas opções, parecia não haver lugar no jogo.
O futebol moderno conta uma história diferente.
Hoje, o futebol é, ao mesmo tempo, uma indústria, uma cultura e uma comunidade com múltiplas dimensões. Saúde, dados, análise, design, meios de comunicação, direito, psicologia, tecnologia, operações, segurança, comunicação e relações humanas fazem parte deste universo.
O Mundial é a grande montra de tudo isto.
Mas, por detrás da montra, trabalham milhares de pessoas.
Talvez seja precisamente aqui que começa a história da Kickwise.
Uma carreira no futebol não se resume a ter visibilidade no relvado. Passa por ajudar o jogo a evoluir, a tornar-se mais justo, a funcionar de forma mais profissional, a ser contado com maior clareza e a chegar a mais pessoas.
Nem todos os que entraram para a história do Mundial marcaram um golo.
Alguns deram forma ao troféu. Alguns desenharam a mascote. Alguns construíram a tecnologia. Alguns conceberam a bola. Alguns criaram a memória visual do torneio. Alguns ajudaram a tornar as decisões mais rigorosas.
É aqui que se revela a verdadeira dimensão do futebol.
Dentro das quatro linhas, vemos 22 pessoas.
Mas o mundo que torna o jogo possível é muito maior.